Sobre a fragilidade dos laços humanos

Publicado no Jornal Prana, no Mês de Outubro de 2006.

Lendo Bauman, sociólogo polonês contemporâneo, que trata das mudanças pelas quais passamos no mundo moderno, fiz algumas correlações interessantes com a dificuldade de estabelecimento de vínculos afetivos duradouros. Em seu livro “Amor Líquido”, Bauman nos fornece pistas para a compreensão dos diversos fatores implicados na solidão tão freqüente na sociedade atual. Em meu consultório colho os reflexos da insatisfação relativa ao jogo de troca incessante de parceiros ou da ausência de pessoas interessadas em relações duradouras. O essencial em toda esta vivência não passa por buscar “culpados”, senão por vislumbrar possibilidades de fazer diferente. E, para tanto, é necessário o entendimento prévio daquilo que dificulta a construção da base para os vínculos afetivos.

Em seu livro “Identidade”, Bauman afirma que passamos de uma sociedade que produzia bens e que tinha como valor central acompanhar o processo de criação de algo, para uma sociedade de consumo cujo valor volta-se para o consumo do objeto e subseqüente descarte deste quando não satisfaz mais.  Vivemos na sociedade do “descartável”, da rapidez, do impulso e da dificuldade de esperar por algo. E as relações afetivas passam a seguir tal padrão. Não se estimula mais o tempo de espera, o prazer da conquista. O “must”, o desejável e o dever passa a ser o número de parceiros, em detrimento da qualidade do relacionamento. Cicatrizes de um mundo onde as fronteiras entre eu e outro são “líquidas”, sem forma definida.

Muitos desejam um relacionamento firme, ouço em meu consultório. No entanto, acoplado com o desejo de algo duradouro, reside o medo de sufocar e ser sufocado. Apertar tanto as amarras que não reste mais nada senão o desejo de se soltar novamente, libertando-se para “outras experiências”. Vivemos sob a ambigüidade de desejar construir, junto com o medo de ser tolhido ou de deixar de experimentar “algo melhor”. A quantidade de relacionamentos possíveis conflita com o desejo de comprometer-se com o outro. Comprometer-se significa “abrir mão de outras possibilidades”, investir na criação conjunta do amor. E como seria “abrir mão de outros”, numa sociedade que estimula a troca constante, afirmando que sempre existe algo melhor? Tornamo-nos mercadorias e fazemos do outro objeto descartável, se reproduzimos este modo de vida. E assim, produzimos cada vez mais insegurança mútua. Como produzir laços que sejam frouxos o suficiente, mas também que demonstrem o desejo de construir um relacionamento de entrega mútua?

Segundo Erich Fromm, a satisfação no amor individual não pode ser atingida sem “a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeiras”. Numa cultura onde tais qualidades são pouco ou nada estimuladas, amar, segundo ele, será uma “rara conquista”. A habilidade de “terminar rapidamente e começar do início” é algo fomentado socialmente. Vivemos em ambientes pouco estruturados, nos quais não sabemos até quando partilharemos da companhia do outro. Como se entregar se não sabemos até quando vamos permanecer? Se tudo se transforma em velocidade cada  vez mais acelerada? A série de eventos amorosos sem vinculação duradoura consiste na expressão da própria fragilidade dos vínculos interpessoais. E quanto mais experimentamos, sem realmente nos entregarmos, mais impotentes para amar nos tornamos. A quantidade em detrimento da qualidade, o lema “não há tempo a perder”, nos leva a buscar relacionamentos encadeados, sem o tempo necessário para elaborar e perceber o que realmente se deseja construir. Aliás, construir para que, se sempre existirá risco de perder, de não “dar certo”? Eis o medo da entrega que subjaz toda dificuldade afetiva.

Construir um relacionamento implica, sim, em riscos. No entanto, estar só sem desejar a solidão, apenas protege ilusoriamente do sofrimento. A escolha real a fazer é: desejo correr o risco de me relacionar, crescer, criar algo em conjunto, prefiro estar com várias pessoas (sem me vincular, experimentando) ou quero viver só? Talvez aí resida um grande equívoco: amar não significa estar fusionado ao outro, não é ser e viver a vida do outro. Amar é a vontade de cuidar e de preservar o ser amado. É contribuir para o mundo, é colocar-se à disposição, assumir responsabilidade. Parafraseando Antoine Saint Exupéry em O Pequeno Príncipe : “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. E talvez, esta tal responsabilidade soe como um fardo pesado a ser carregado e não como algo a ser compartilhado. Somos incitados a nos responsabilizar por nós mesmos o tempo todo. E de tanto aprendermos a tal responsabilidade, talvez estejamos esquecendo que também somos frágeis, somos humanos e necessitamos confiar, ter pessoas reais ao nosso lado. Se não conseguimos confiar em nossa capacidade de escolher em quem acreditar, como estabelecer vínculos com possibilidade de desenvolvimento?

A psicoterapia surge como um caminho para o auto-conhecimento e descoberta da própria auto-confiança, auto-estima e recursos necessários  ao desenvolvimento de uma vida saudável e em conexão com os próprios desejos, necessidades e prioridades. Respeitar a si próprio consiste na primeira etapa para a construção de relacionamentos estáveis e duradouros. Respeitar-se consiste em conhecer e manter os próprios limites e também as fronteiras do outro.  Talvez deste modo, possamos contribuir como aquele pescador que devolve as estrelas do mar ao seu habitat, na construção de um mundo melhor. E também que a arte do relacionamento seja algo a ser conquistado continuamente, enfrentando os medos de cada um, as fragilidades mútuas e distintas, com respeito, troca e crescimento conjunto. E assim, quem sabe conseguimos tornar realidade o que nos dizia Platão: “O amor é para gerar e nascer no belo. Amar é o desejo de gerar e procriar. Não é no anseio por coisas já prontas, completas e finalizadas que o amor encontra o seu significado, mas no impulso de participar da transformação dessas coisas, e contribuir para elas. O amor é semelhante à transcendência. É apenas outro nome para o impulso criativo.” Que tal se arriscar para ser feliz?

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