Por que adoecemos?

Adriana Marques dos Santos *

O processo de adoecimento é um meio de pedir socorro. É um sinal de alerta para algum desequilíbrio. Geralmente quando falamos em adoecimento, pensamos em doenças que atingem nosso corpo. No entanto, para além dos sintomas físicos, o modo como lidamos com nossas emoções, sentimentos, as lentes que utilizamos para enxergar nosso cotidiano estão diretamente associadas com nossa propensão a adoecer. Wilhelm Reich, pai da Psicoterapia Corporal, dizia que corpo e mente são uma unidade integrada e que os bloqueios que construímos em nosso corpo para nos defendermos de situações de ameaça, quando se cronificam, tornam-se verdadeiras armaduras (que ele chamava de couraças), dificultando nossa fluidez e espontaneidade também nas relações. O correspondente das couraças que são defesas corporais, estampadas nos músculos, nos padrões de funcionamento celular e glandular, é o caráter, ou seja, a nossa forma de agir no dia a dia. Segundo Reich há uma rigidez de caráter correspondente a todo padrão de funcionamento corporal. Portanto, todo processo de adoecimento parte de um desequilíbrio que nos atinge em nossa unidade corpo-mente. Ambos funcionam de forma integrada e a delimitação dos campos somente nos serve para lidar com algo que é muito complexo, que é a totalidade do ser humano.

O modo de perceber o adoecimento mudou ao longo do tempo. Na Grécia antiga, Hipócrates, considerado pai da Medicina, dizia que a doença era conseqüência de um desequilíbrio do que ele chamava de “os quatro humores corporais” (sangue, fleugma, bílis amarela e bílis negra). Hipócrates fazia também uma conexão entre estes humores e o modo de viver de cada indivíduo (personalidade). No século XVII, René Descartes, pai da Filosofia Racionalista, imprimiu uma nova visão de mundo baseada na divisão entre corpo e mente. Se pensarmos na influência deste pensamento ainda nos dias de hoje, basta olharmos para o quanto a visão de saúde e doença está baseada na divisão entre “doenças do corpo e doenças da psique”. Acrescentamos o fato de que percebemos uma hierarquização entre elas, sendo as doenças do corpo melhor aceitas do que as doenças psiquiátricas. Uma doença coronariana, por exemplo, é percebida diferente de uma depressão, de uma esquizofrenia. Socialmente, ainda nos dias de hoje, há uma tendência a tratar as doenças que se expressam no físico com mais aceitação, enquanto as “doenças psíquicas” ainda carregam o preconceito e desconhecimento de muitos.

Reich nos deixou como legado de sua curta existência (1897 – 1957) a compreensão de que somos um todo integrado, resgatando a visão holística proposta por Hipócrates na Grécia antiga. Nosso modo de agir no mundo também pode ser um padrão doente, sem ser percebido desta forma. Nossas couraças (defesas corporais) e seus correspondentes na forma de agir (caráter) são expressões de bloqueios energéticos que impedem a livre circulação de energia em nosso corpo. Reich chamava esta energia de Orgone. Os bloqueios de energia podem gerar um padrão hipo-orgonótico na musculatura (de baixa carga de energia, com conseqüente flacidez e desvitalização da musculatura) ou hiper-orgonótico (com excesso de carga, gerando músculos enrijecidos e doloridos). O padrão de baixa circulação da energia, tanto por excesso como por falta desta em partes do corpo, atua como a metáfora da água parada.Imaginemos uma poça de água parada. O que acontece com esta água que não circula? Apodrece. Da mesma forma, nosso corpo e nossa forma de agir no mundo.

A psicoterapia corporal integra o trabalho de escuta e compreensão do que o cliente diz com a intervenção corporal, seja esta através de massagens, trabalhos com respiração ou exercícios expressivos (actings). Baseia-se na escuta psicanalítica, permitindo que o corpo seja também percebido como veículo de expressão do que é dito. A integração entre o trabalho verbal e corporal permite o acesso ao inconsciente, ampliando o autoconhecimento e possibilitando a construção de novas formas de estar no mundo, com mais fluidez e integridade.

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