Solidão e Solidariedade

Estive pensando estes dias sobre a conexão entre a vivência da solidão e da solidariedade.

Escuto com freqüência em meu consultório a queixa do vazio quando se está só. Muitos não suportam este vazio e não encontram nele produção alguma, somente a reprodução de um “estado fóbico” (medo) que cada vez mais se alastra em nossa sociedade – a “Fobia de solidão”. Vejo e escuto pessoas que se mantém em casamentos ou relacionamentos infelizes, que já as arremessam para a verdadeira solidão. No entanto, o medo de assumir a escolha de estar só perante si mesmo e diante do grupo social, impede o rompimento, a separação. É o famoso: “ruim com ele(a), pior sem ele(a).” E a manutenção deste “status quo”, desta situação, impede muitas vezes que se enxergue novas formas de relação e de estar no mundo.

Uma das coisas que me ocorreu a respeito deste tema: solidão e solidariedade é que ambas podem ser dois lados de uma mesma moeda. É preciso ser só para poder encontrar, é preciso ter um eu para um tu. E para o eu e o tu virar nós, é preciso também voltar a ser eu e tu… ou o nós torna-se um “grande nó” que não desata, que não respeita a individualidade e pode gerar a verdadeira solidão. A solidão de não compreender mais o que é meu e o que é do outro, de se tornar uma grande fusão e ser apenas a expectativa do outro… e cair no vazio da descoberta de que nada foi realmente construído pelo eu.
Interessante que ao buscar o sentido da palavra só em um dicionário etimológico, li e destaco: “desacompanhado, solitário, único… voar só…” (Dicionário Etimológico Nova Fronteira – Antônio Geraldo da Cunha). E pensei: talvez a consciência de nossa solidão nos permita conectar com a noção de que somos seres únicos. E como seres únicos, podemos alçar vôos próprios, pessoais e intransferíveis, rumo ao que desejamos. O estar só ao qual me refiro é a conexão com aquilo que de mais precioso temos, com nossa essência, com o respeito aos nossos sonhos e desejos. Podemos estar sós, mas não necessariamente sozinhos no mundo. Comecei a pensar que talvez esta solidão sobre a qual escrevo seja muito diferente da solidão vivenciada em nosso cotidiano de grande metrópole. A grande “Fobia de solidão” produzida em nosso dia-a-dia é aquela que fala da falta de laços verdadeiros que liguem as pessoas umas as outras. Advém da grande confusão instaurada entre o respeito aos próprios desejos, sonhos e, a freqüente invasão e desrespeito aos espaços alheios. Sonhar, desejar, não implica em destruir o que é do outro. E aí fico pensando: “onde entra a tal solidariedade?”
Busquei no mesmo dicionário o sentido da palavra solidariedade. E qual não foi minha surpresa ao descobrir que esta palavra advém de sólido. Solidário é aquele que tem consistência, que não é oco, que não se deixa destruir facilmente. Do latim solidus: solidificar, soldar. Podemos pensar em muitas coisas a partir disto. O quanto a solidariedade permite que as pessoas criem vínculos que partem do coração e que se concretizam pela vivência e investimento mútuo. O quanto o movimento de ser solidário parte daqueles que têm realmente algo para dar (de sua essência, partindo daquilo que são verdadeiramente). O quanto gerar vínculos verdadeiros nos fortalece enquanto seres humanos.

A grande e possível interdependência entre a solidão e a solidariedade está diretamente relacionada com o modo de cada um construir sua vida. Um pequeno gesto modifica a estrutura de um acontecimento. Vivenciei de perto um gesto aparentemente pequeno e que modificou um grande acontecimento: um amigo disse para outro o quanto se sentia só por estar em um momento muito difícil de sua vida. Muitas pessoas se afastaram dele, ele disse. Mas aquele amigo percebeu que o outro precisava de ajuda e foi encontrá-lo, simplesmente disponibilizando seu tempo para estar com o outro e ouvi-lo verdadeiramente. Isto impediu uma tentativa de suicídio e permitiu que esta pessoa buscasse auxílio terapêutico. Quantas vezes não temos tempo para ouvir o outro? Esta noção de que ouvir é perda de tempo e o distanciamento gerado por esta atitude, nos leva como bonecos massificados por nossas obrigações à tão temida solidão. A solidão que impede a conexão com aquilo que temos de melhor e mais íntegro (porque não temos tempo para o autoconhecimento) e a construção de vínculos fortes com o outro.
A temida solidão é a consciência de não ter com quem contar, não saber como se estruturar ou re-estruturar. A consciência dela geralmente surge quando estamos muito frágeis ou sensíveis e pode ser libertadora.

Há vários caminhos para construir a conexão com o próprio eu e com o outro, para integrar o estar só e a solidariedade. Cada pessoa pode e deve buscar o seu próprio caminho. O que posso acrescentar é que a Psicoterapia pode ser um deles. Talvez não o único, mas apenas um deles dentre tantos que podem ser descobertos e trilhados conjuntamente. A Psicoterapia é um caminho de integração com o eu, uma construção única que parte de uma relação de confiança entre o Psicoterapeuta e o cliente, e vice-versa. É um vínculo que reforça a capacidade de crescimento, descoberta, fortalecimento, visando a construção da autonomia do cliente. É um dos meios de construir a liga necessária para sair, desmistificar, alterar o sentido de como podem ser vividas a solidão e a solidariedade.

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