CIÚME: Medo da perda
*Por Adriana Marques dos Santos
Ciúme: dor da alma, segundo o filósofo grego Sócrates. Presente desde o início da humanidade. Na Bíblia em Caim e Abel, na literatura de Shakespeare em Otelo, na atualidade em manchetes de jornais através de crimes passionais. Até então falamos sobre o ciúme que mata, da patologia, do exagero. Existe, porém uma linha divisória entre o ciúme normal e o patológico. O ciúme considerado normal ocorre em um contexto interpessoal, ou seja envolve duas pessoas e se baseia em evidências reais que ativam o medo de perder o amor do outro e o lugar que se ocupa na vida daquele. O ciúme patológico, por outro lado, compreende vários sentimentos perturbadores, desproporcionais e absurdos que ocasionam comportamentos inaceitáveis. Esses sentimentos envolveriam um medo desproporcional de perder o parceiro para um rival, desconfiança excessiva e infundada, gerando significativo prejuízo no relacionamento interpessoal.
Joana, nome fictício, relacionava-se com um rapaz por quem era apaixonada. Estava feliz até começar a desconfiar de tudo o que ele dizia e a sentir um medo exagerado de perdê-lo. Este medo aumentava a cada dia. Sentia-se mal quando via uma mulher bonita aproximar-se de seu namorado. Fantasiava com ele encontrando outras mulheres às escondidas. Desconfiava de tudo e de todos. Buscava no bolso dele qualquer prova de traição. Perguntava sobre tudo o que fazia e com quem estava, temendo que estivesse escondendo algo dela. Por não acreditar no que ele dizia, começou a segui-lo. Tinha certeza de que ele a traía com outra. Não sentia segurança em seu relacionamento. Descobriu que ele era fiel, mas mesmo assim não era suficiente. Tinha que descobrir algo. Começou a interrogá-lo ainda mais, a entrar em seu Orkut , ver suas mensagens. Descobriu sua senha na internet e entrava em sua caixa de e-mails. Ela checava diariamente todas as mensagens. Não encontrava nada e, mesmo assim, mantinha sua busca frenética. Seu namorado começou a sentir-se sufocado, mesmo sem saber das invasões de correspondência eletrônica ou que estava sendo seguido diariamente. Mais uma vez a história se repetia. Joana percebia-se presa em sua própria teia e não conseguia construir uma vida independente do outro. Buscou ajuda na psicoterapia.
Ao ser questionada sobre sua história afetiva anterior, seguiu-se um padrão de fantasias, imaginação, crença de que não encontraria nenhum homem fiel e que caberia a ela cuidar do relacionamento, permanecendo grudada no namorado, se possível 24 horas por dia. Do mesmo modo, mantinha o padrão de ser abandonada pelos homens. Não conseguia manter por muito tempo um relacionamento, pois todos sentiam-se sufocados. Deste modo, Joana acabava por confirmar sua crença de que “os homens são todos iguais e não prestam, não sabem ser fiéis e não sabem amar.” Dizia: “se me amasse de verdade, teria ficado ao meu lado deste jeito mesmo e teria me ajudado e resolver este problema.” Percebia que era um problema, mas não conseguia se conter ou mudar a sua forma de agir. Por diversas vezes fez escândalos em locais públicos, por imaginar que alguma mulher tentava seduzir seu namorado ou que ele estava olhando para alguém em especial e deixando de prestar a devida atenção a ela. Na realidade Joana desejava uma atenção impossível, aquela que o bebê necessita da mãe.
Percebemos na clínica a correlação direta entre o ciúme patológico e a história de vida do cliente. O comportamento decorrente do ciúme patológico, como o descrito no caso de Joana e de outras pessoas em menor nível, surge como defesa a um medo exagerado de perder o objeto de amor. No entanto, diferente do ciúme normal, o medo surge através de fantasias construídas no mundo interno, sem necessariamente estar relacionada com a ocorrência no mundo real. No caso de Joana, por exemplo, o namorado não a traía, mas o sentimento de possível traição e a dor que isto gerava era incomensurável. A baixa auto-estima, o comportamento impulsivo e por vezes agressivo são fatores existentes na personalidade dos portadores de ciúme patológico. Diversos diagnósticos psiquiátricos podem conter o ciúme em seu bojo. No alcoolismo e uso de outras drogas, por exemplo, é comum a existência do delírio de ciúmes (idéias de que está sendo traído), bem como em casos de transtornos de personalidade, depressão, Transtorno Obsessivo-compulsivo e até mesmo na Esquizofrenia. O ciúme pode estar presente em todos estes quadros.
A história de Joana pode causar em alguns um certo desconforto, seja por identificação ou por medo de encontrar outras Joanas ou Joãos por aí. No entanto é fundamental saber que o ciúme patológico é algo que torna aquele que o sente o principal prisioneiro de si mesmo. Pode e deve ser tratado em sua especificidade. Cada pessoa tem sua história de vida que gera o sofrimento que lhe é peculiar. E é esta pessoa que será tratada em sua individualidade, sendo respeitada em sua dor. A elaboração de seu modo de estar no mundo é um dos caminhos para rever padrões e redescobrir recursos para lidar com as próprias dificuldades. A psicoterapia corporal oferece a possibilidade de atingir o nível pré-verbal (vivências de quando ainda não falávamos) e elaborar o passado no presente vivido. Além dos trabalhos corporais com base na leitura psicanalítica, atuamos com EMDR (Eyes Movement Desensitization and Reprocessing- Reprocessamento e Dessensibilização através do movimento ocular) que é uma técnica criada por Francine Shapiro, americana, que trabalha de modo focalizado sobre os traumas passados ou mais atuais.
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