O resgate do amor como uma vivência de prazer

Adriana Marques dos Santos

Prazer – palavra que significa bem-estar. Na contemporaneidade é algo vivido de modo fugaz, pouco duradouro. A tônica da atualidade parece ser uma busca desenfreada pelo bem-estar nas suas mais diversas formas – seja na comida, bebida, relações sexuais, compras, baladas. Neste texto nosso foco estará voltado para as relações afetivas. Do mesmo modo que todos os exemplos citados anteriormente, as relações afetivas parecem seguir um padrão consumista. Segundo Zygmunt Baumann, Sociólogo polonês, em seu livro “Amor Líquido”, os relacionamentos pendulam entre o desejo de estreitamento dos vínculos e o afrouxamento das relações afetivas, sendo que tendem a ser vivenciados como uma busca por quantidade em detrimento da qualidade. A “Modernidade Líquida”, termo cunhado pelo autor, é expressão de um modo de viver no qual as referências de vida são cada vez mais frágeis. Tudo é passageiro: emprego, família, relacionamentos, regras. Tudo pode mudar a cada segundo, gerando também vínculos afetivos cada vez mais frágeis.

Pensando no cotidiano e no que escutamos em nossa clínica, percebemos uma contradição entre a demanda por relações mais estáveis e uma práxis caucada numa busca desenfreada de parceiros amorosos. Seja pelos desencontros da vida ou mesmo pela falta de pessoas que desejem o mesmo caminho, muitos se veem atrelados a uma possibilidade de relacionamentos fugazes ou a permanecerem sós. O medo da entrega, de estreitar demais a proximidade com o outro, pode também estar gerando um impulso para o extremo oposto – encontros cada vez mais superficiais, onde o bem-estar é vivido, mas depois é um “até logo, depois te ligo” que nunca acontece.

É neste cenário que percebemos a legitimidade de um espaço de reflexão quanto ao significado do resgate do amor enquanto uma vivência de prazer.

E o que é o amor? Ele pode aparecer sob tantas formas…

  • Eros (amor) – um amor apaixonado fundamentado e baseado na aparência física.
  • Psiquê – um amor “espiritual”, baseado na mente e nos sentimentos eternos.
  • Ludus – o amor que é jogado como um jogo; amor brincalhão.
  • Storge – um amor afetuoso que se desenvolve lentamente, com base em similaridade .
  • Pragma – amor que visualiza apenas o momento e a necessidade temporária, do agora.
  • Mania – amor altamente emocional; instável; o estereótipo de amor romântico
  • Agape – amor altruísta; espiritual.

Em qualquer de suas expressões, o amor sempre é vivido a partir de um verdadeiro encontro. E encontrar é trocar, compartilhar com o outro algo de si, mudar e ser modificado. É construir laços da forma possível, desejada, respeitando as diferenças, o modo de ser de cada um. O amor é a maior expressão de prazer vivida no corpo. É um bem-estar que modifica a fisiologia de nosso corpo, gerando um movimento de contração e expansão que atinge nossas células, glândulas e músculos. Wilhelm Reich, criador da Psicoterapia Corporal, dizia que a dificuldade de se entregar seria expressão de nossa “impotência orgástica”, isto é, um descompasso no ritmo contração-expansão de nosso corpo, gerado pelas couraças (defesas no corpo que funcionam como diques dificultando a livre pulsação). Quanto mais rígidas as couraças, maior a dificuldade em expressar afeto e entregar-se nas relações amorosas. Segundo Reich a Potência orgástica, ou seja, a capacidade de viver de forma plena, entregue às pulsações do corpo, segundo a fórmula do orgasmo (tensão-carga-descarga-relaxamento), seria a chave para a conexão com o prazer de viver e também um dos objetivos da psicoterapia corporal.

Partindo de uma visão única do ser humano, na qual corpo e mente são integrados, a psicoterapia Corporal atua sobre o entendimento do que é dito e também vivido no corpo. Além do discurso do paciente, que nos abre uma porta para seu inconsciente, os trabalhos corporais possibilitam a conexão com vivências primitivas que participam da estruturação de nosso modo de amar e ser amado. Estas vivências referem-se ao período em que ainda não falávamos, mas sentíamos e marcávamos em nossos corpos tais sensações sem uma conexão com a palavra falada. Atuando naquilo que é dito e vivido corporalmente pelo paciente, seja através de um trabalho com respiração ou actings (exercícios) propostos de acordo com o momento da psicoterapia, o psicoterapeuta viabiliza um novo caminho para flexibilizar as couraças. Deste modo, novos modos de se relacionar com o mundo, mais pautados na flexibilidade de ser, agir, relacionar-se com o outro podem ser construídos.

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